21/11/2014

Zumbis felizes vítimas do mal-estar social



É inegável a incapacidade do ser humano de lidar com a frustração. Como bem explicava Freud em seu estudo sobre o mal-estar social, o homem está fadado a infelicidade. Porém, as pessoas não sabem lidar com isso, vivendo frustradas por não conseguirem serem felizes.

O homem moderno almeja acima de tudo a felicidade, impossível não almejar, já que a cada passo ele é bombardeado com imagens de sorrisos brancos e falsos que despertam uma imensa vontade de se sentir feliz. Pode ser no facebook, com imagens amigos sorridentes aproveitando as aventuras de um final de semana ou ao ligar a televisão e assistir uma novela onde todos os merecedores acabam satisfeitos e sem momentos de extrema melancolia, não importa a mídia, em todos os lugares existe uma cobrança para que as pessoas se sintam alegres.

Porém as coisas não são tão simples, a satisfação plena é quase que impossível de ser alcançada, principalmente em meio a todo esse caos moderno. Assim, a frustração não tarda a chegar, já que a incapacidade de alcançar o pleno bem-estar acaba machucando os indivíduos, que se sentem perturbados e perdidos ao não terem aquilo que é considerado o ``sentido da vida``.

O desenvolvimento da cultura e tecnologia, ou seja, a civilização do homem, tornou ainda mais complicado ser feliz. Os avanços do homem deixaram ainda mais hostil o mundo em relação as necessidades humanas. As pessoas estão presas a rotinas angustiantes que são necessárias para se encontrar os prazeres da vida, por exemplo, para curtir um dia na praia, o indivíduo tem que encarar uma árdua rotina no trabalho, se expondo a stress e momentos de total desprazer.

Dentre tanta competitividade e cobrança, as pessoas acabam ficando cada vez mais ansiosas, procurando desesperadamente uma maneira de se sentirem satisfeitas. Assim tentam compensar a frustração em mercadorias ou coisas que proporcionem o prazer instantâneo. Surgem os chamados ``zumbis felizes``, pessoas que apelam para a química para poderem se sentir bem, ou seja, se entregam aos anti-depressivos ou drogas em geral que promovam uma sensação rápida de bem-estar.

Pode ser observada uma legião de pessoas com sorrisos sem motivação. Muitos apelam para qualquer coisa que promova um prazer rápido que os faça esquecer da infelicidade cotidiana. Fica perceptível  medo do homem moderno de lidar com os infortúnios e a decepção, poucos aceitam que a vida é feita de momentos felizes, e não de uma rotina de extrema alegria.

Doenças modernas como a depressão são diagnosticadas. Os médicos receitam pílulas que induzem o sono, remédios que curam a tristeza, fórmulas que extinguem a ansiedade e tentam mascarar o estado natural em que se encontra a sociedade contemporânea. É fato que apenas poucos aceitam a legitimidade do sofrimento e tristeza, sendo que todo o resto tenta fugir ou provar para os outros que são felizes, enquanto criam vícios e passa-tempos que os distraiam dos infortúnios da existência.

O medo de aceitar a dor como algo natural cria indivíduos insatisfeitos que buscam atônitos algo intangível. São sorrisos plásticos ilustrando o mundo, fileiras de pessoas que correm em círculos, fugindo da naturalidade da insatisfação. Compras em shoppings, punhados de comprimidos, fotos que tentam captar sorrisos cheios de álcool, são diversas as maneiras encontradas de provar para si mesmo que é possível encontrar um prazer duradouro o suficiente e que dê sentido ao ``ser feliz``.


11/11/2014

Violência urbana: Profissão bandido



O que vale mais a pena afinal? A árdua vida de trabalho, que garante ao excluído da sociedade apenas o necessário, ou a vida do crime, cheia de contradições, com dinheiro fácil, mas um final não muito feliz. Bem, esse é o dilema de muitos jovens brasileiros, que necessitam optar entre esses dois caminhos antagônicos.

Não é segredo o fato de que urbanização brasileira, principalmente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, foram precárias. Com a intensa vontade de ``limpar`` o país para adquirir investidores, famílias com pouco poder aquisitivo foram sendo expulsas dos arredores dos cartões postais dessas grandes cidades (muitas vezes através de incêndios criminosos) e logo após foram amontoadas em morros e favelas.

Com baixíssimas oportunidades de crescimento econômico, mas imensa vontade de poder pertencer a sociedade de consumo, indivíduos marginalizados desenvolveram demasiado revanchismo em relação ao Estado. O descaso do governo, somados a precariedade habitacional, além das contantes cobranças do ''ter'' conseguiram fermentar grande ódio e vontade de vingança em alguns cidadãos desfavorecidos.


O crime apareceu como opção vantajosa para o crescimento econômico daqueles que provavelmente teriam uma vida modesta e repleta de desventuras, afinal, vivemos numa sociedade viciada em poder e prazer, e o dinheiro é a porta de entrada para essas duas coisas. A profissão bandido passou a agregar valores e status dentro das comunidades.

Durante a década de setenta o narcotráfico penetrou com força no Brasil e somado aos grandes assaltos e assassinatos ficou evidente o avanço da violência urbana e a incapacidade da polícia de fazer valer o pacto social. Numa cultura maniqueísta, o mal começou a ser representado pelas figuras de repreensão estatal, enquanto moleques marginalizados encontraram nos traficantes um exemplo de como conseguir poder e luxo.

Dessa maneira foi se espalhando o caos urbano nas comunidades. Facções opostas acabaram disputando o poder dentre a terra de ninguém que eram as favelas brasileiras e impondo um sistema de leis único e independente da Constituição Brasileira.



Em meio a esse caos, haviam também aqueles que buscavam trilhar os caminhos da legalidade, buscando uma vida melhor. Reféns da instabilidade e do crime, essas pessoas possuem condições mínimas de oportunidades, além de culturalmente serem marginalizadas. A discrepância social é evidente e é dura a escolha de seguir cumprindo o papel de cidadão, aceitando o possível trabalho braçal e todas as dificuldades remanescentes da pobreza.

Um país construído por meio de gambiarras não teve a capacidade de glorificar os esforçados e punir com severidade os infratores que na verdade são apenas vítimas de um sistema falho. A marginalidade parece uma opção atrativa que pode oferecer uma igualdade de fato, diferente das mentiras assistencialistas que buscam mascarar a pobreza.

Bandido quer casa, ladrão quer comida, traficante quer mulheres bonitas e um carro do ano, todos almejam viver de acordo com o sonho americano, aproveitando as mazelas consumistas. Porém com a discrepância social recorrente no Brasil fica difícil manter o status exigido pelo mundo atual, sem apelar para meios ilícitos de adquirir dinheiro.

Assim, a violência urbana vem crescendo de maneira alarmante. Os que querem fugir da criminalidade, sofrem, vítimas da insegurança e instabilidade proveniente das disputas do tráfico e dos assaltos que ocorrem constantemente. A credibilidade da polícia está em baixa, os crimes são cada vez menos denunciados e a sensação de impunidade cresce. Os naturalmente sofredores, nascidos as margens da sociedade, estão inevitavelmente ligados a tragédia, com algumas raras exceções que despontam economicamente.



A situação brasileira é precária. As origens dos problemas nacionais remetem a décadas atrás e a solução parece algo distante. Bandidos não abrem mão dos luxos provenientes da criminalidade, foram induzidos a isso. O marginal está cheio de ódio, sede de vingança e só se sente respeitado com uma pistola na mão. Aqueles que optaram pela criminalidade desacreditam do poder dos livros e querem apenas um juiz ajoelhado implorando para não sentir o calibre da pistola (Isso aqui é uma guerra, facção central).

Como diria o velho rap, a fome virou ódio e alguém tem que sangrar. Não tem conversa, o crime é lucrativo e parece ser uma alternativa para os aflitos e mal condicionados. A profissão bandido pode garantir todos aqueles sonhos expostos na televisão, pode ajudar alguns a se safarem do desespero e virou algo normal optar pela corrupção.

Atualmente as soluções para o caos urbano, enraizado nas grandes cidades brasileiras, parece uma utopia. A polícia armada e mal remunerada se alia a bandidagem e o sentimento de impunidade apenas faz crescer a segurança daqueles que optam pelo crime. Historicamente oprimidos, os marginais agora fazem valer uma lei independente, lutando de maneira precipitada e imatura contra a formação brasileira. A redistribuição de renda está acontecendo, trazendo novos problemas e novas desigualdades. Os Robin Hoods canarinhos agora querem adentrar aos dogmas do consumo e estão obtendo sucesso nessa investida, já que conseguiram transformar o crime numa atitude lucrativa. Mas no final, até mesmo os ``rebeldes`` do crime são apenas mais alguns gados caminhando em direção do abatedouro.


05/11/2014

E ela acordou...



Então ela acorda. Mais um turbilhão de pensamentos que poderiam ser evitados com um daqueles degustáveis punhados de remédio para dormir. Liga a televisão, mais um turbilhão de problemas para assistir. Ela entra numa conversa rotineira, deixando escapar mais um turbilhão de palavras vazias que ecoam os sons do silencio.

Presa numa neblina tragável de um cigarro barato, zumbi feliz, caminhando em direção do injustificável. E a esperança parece uma palavra longa demais para ser absorvida, para ela esse é apenas mais um dia agonizante que irá dilacerar todas aquelas velhas feridas.

Talvez depressiva, talvez covarde demais para encarar a legitimidade do sofrimento. Empanturrando o cérebro com autores cultuados, tenta ser blasé, deixando os velhos hábitos que são um tanto quanto démodé de lado. Sim, dependente química, fugindo das frustrações com mais uma dose de alguma porcaria, embriagando-se  de frustrações, esbaldando-se nas decepções.

Meio complicado, pensamento atordoado, dor mais do que justificável. Na seleção natural ela perde por não aguentar tamanha racionalidade, morre por Darwin já que é incapaz de conviver com tantas verdades. A menina era meio louca, proclamava discursos marxistas com sua voz rouca, vivia da hipocrisia e chorava via iPhone as dificuldades subsaarianas e toda aquela velha ladainha.

Escrava das doenças que corroem o mundo moderno, egoísta e mimada, chorando sem lágrimas e pedindo para o psiquiatra dopá-la através de berros. Vítima da contemporaneidade, lendo textos bonitos e tentando compor algo que conseguisse exemplificar todas aquelas ocultas tempestades que eram protagonistas de pensamentos profundos.

Devaneios óbvios, mais do que claros. Ansiedade perceptiva, atestada pelas unhas extremamente roídas. Verdade doída. Sim, ela acordou, despertou para mais um dia duro da realidade, onde só havia espaço para a saudade dos tempos onde havia esperança, ou ao menos saudades do tempo em que ela estava ilúcida o suficiente e que podia ignorar o fato de estar inevitavelmente participando dessa louca dança. 

10/09/2014

Devaneios



Um ar extremamente tragável, com uma estrutura densa, tomada pela neblina amarga do tabaco que era inalado com desespero pelos pulmões aflitos. Dedos amarelados, pintados com cor de fogo e descascados por motivos de solidão.

A porta estava fechada e criava sobriedade que não deveria ser atribuída para aquele fétido lugar escuro, onde os sonhos morriam ou eram apagados pela ilusão. A porta marrom raramente era aberta, mas tinha aparência de portal, não um simples portal, mas sim aquele que poderia levar qualquer pessoa ao ambiente mais sombrio e sarcástico já encontrado.

Aqueles cabelos laranja ressecados, unicamente mal tratados sentiam a cada instante o toque daquelas unhas roídas, que tentavam afastá-los do repousar da testa daquela menina sádica. Era uma preocupação despreocupada, tão intensa quanto a inconstância dos atos da jovem Tangerine, que se arrumava desarrumadamente e transformava aquela oleosidade provocada pelo extremo desleixo em moda.

Estava lá ela, dividindo sua atenção entre uma tragada de alívio ou notas de seu violão. Estava lá ela entorpecendo cada sonho com a dor do delírio, sentindo a selvageria estarrecedora do silêncio, enquanto abraçava o vazio de sua alma e acreditava de maneira desacreditada que estava distante de tudo.

Pelas paredes daquele quarto cinzento, ela escutava tagarelados e gemidos, talvez inexistentes ou quem sabe realmente potentes. Loucura, contos de sua imaginação que anestesiavam aquela calmaria intensa que dominava aquela atmosfera. Balbucia incomoda, para ela não era nada irreal os gritos de dor que ecoavam de cada parede oca.

06/06/2014

Expectativas


Uma visão romantizada dos fatos, adquirida após horas sentadas diante de uma televisão sendo entorpecida por aqueles filmes agradáveis da Disney que transformavam mentiras em sonhos, criando uma geração de pessoas insatisfeitas com a incapacidade de poder tocar todas aquelas expectativas que foram criadas.

Discursos diretos substituídos por trechos de músicas pop acaloradas, publicadas nas redes sociais, cercadas pela esperança de a certa pessoa certa lesse aquilo e interpretasse, deixando escapar em algum lugar que é recíproco.

Uma mídia distorcendo relacionamentos, criando falsas interpretações que tornaram o amor uma obrigação que jamais pudesse ser sentida. Conversas no chat, visualizações, palavras bonitas saídas somadas a intenções sexuais vazias.

Dúvidas e inseguranças dançando no relento, acompanhando o doloroso e estrondoso som que fazia todo aquele silêncio. Diálogos incompletos, palavras ambíguas, esperança deserta numa estrada de agonia. As lágrimas secas que percorriam aquele rosto jovem ao descobrir que não existia a fantasia que toda aquela enxurrada de filmes transmitia.

Tudo certo, nada resolvido. Sentimentos trancafiados, ocultados por um sorriso falso e amarelo que tenta gritar para todos que está tudo bem, mesmo que todos saibam que não. Uma constante vontade de evitar a vergonha de que soubessem de antemão que não era uma história de amor.

Vida colorida em tons cinzas, assombrosos e sádicos, ilustrando as ilusões constantemente repetidas. Promessas baseadas em mentiras, apertos de mão e condecorações educadas, rondadas de rancor e ódio não proclamado por motivos de se saírem melhores guardados.

Os anos vão passando e acaba sufocando todas aquelas decepções, permanece a constante dúvida de quanto tempo seu amor te esperará, para te dar uma nova oportunidade de você esperar por ele. A insegurança silencia todas aqueles eufemismos que poderiam ser utilizados para expressar o mais alto grau de encantamento, o medo faz com que escondam toda essa bela loucura apenas para provar que não se importa. Ah, e eu sei, como você tragicamente se importa.

Tempo perdido, ficando atordoado entre tantas decepções. Mistérios fonetizados, transformando em enigma todos aqueles versos e canções. Mais um dia para deixar espatifar uma garrafa de vinho caro, enquanto se embebeda da fonte de todas aquelas pessoas que mais parecem um daqueles refrigerantes baratos.

Tudo vai fluindo desordenadamente, causando enjoo e tontura. A desordem transforma o melhor que você pode ter em apenas um sonho, e tudo isso vai parecendo louco, dentro da sua triste sanidade. A questão é que ninguém mais se entrega, ninguém mais se revela, ficando a mercê de todas aquelas imposições hollywoodianas, que quando não seguidas a risca, dilaceram o coração de quem se arrisca a encenar todo esse espetáculo que eles chamam de vida.

05/03/2014

Cigarro apagado, pensamento bloqueado


Aqueles monstros humanos, detentores de um sadismo inigualável, brincam com o lisérgico e doentio prazer de manipular vidas. Numa multidão repleta de sorrisos plásticos, surge alguém com formas que não se encaixam no padrão, alguém que grita, mas sem reação. Uma ovelha desgarrada, alma atormentada.

Mesmo calada ela não se cala, parece recuar, mesmo sem temer nada. Um destaque em meio a todos aqueles rostos doentes organizados em fileiras, corpo caliente que não precisa dessa educação e que faz desfeita quando a convidam pra se ajeitar numa carteira.

Um olhar quente, um problema a ser resolvido, uma incógnita que queima em rebeldia. Uma negação latente, um instinto voraz, a mais mórbida expressão de vida. Num mundo em preto e branco, ela é tinta derramada, o fogo do estopim de uma bomba, o início da revolução.

Mas vamos com calma, para cego um pouco de cor não é nada. Então fuja menina, eles estão vindo com seus cabrestos, coma a dor e engula o choro, vamos ficar um pouco vazia? Cante, dance e proclame nossas mentiras. Pare de lutar, não queremos te dopar, o amor não vai te anestesiar, não há bafo de bebê para te acalmar.

Se iluda, respire fundo e busque no oxigênio algum vestígio de sobrevida. Sobreviva, morto, sorria; Professores acarrancados, sonhos estereotipados, olhe um espelho vazio, aperte o parafuso afrouxado. Não sou eu, não é você, deixem cortarem suas asinhas. Desde o inicio transformando verdades em mentiras.

Decepcionante, mais uma pessoa corrompida, foi entupida com sonhos da mídia, vendida por promessas vazias. O começo do fim se iniciou, a perseguição intensa te matou. Nos livramos do ultimo vestígio de esperança, infelizmente você entrou na dança.

Se afogue em suas lágrimas, morra de depressão. Fornique bastante, crie bastardos para a auto-satisfação. Drogue-se e fuja da realidade, pois isso não representa problema num mundo onde nada é de verdade. No fim você já se acostumou aos dias de dor.

01/03/2014

Um adeus sem prejuízos


Cortaram aquelas asinhas imundas. Agora ela sabe que não pode mais voar. Transpirou pelos olhos lágrimas, mas a amargura deixava ela seca demais pra chorar. Olhava levianamente seu reflexo, mas nada conseguiu encontrar, transcreveu dialetos e fingiu se importar.

Era um aneurisma, era o desespero, vontade incomparável de ter algum apego. Céu preto que não derramava dádivas, capim grudento que não encantava. Um adeus gritante, pedidos de socorro silenciosos, ela achava que era pouco, ela achava que já estava acostumada com a dor da existência.

Engasgando nas mentiras alheias, se entupindo de esperanças passageiras. Pedindo desculpa sem cometer os pecados, se redimindo sem jamais ter cometido atos, contradições que cortavam e desespero que não notavam.

A vida ficava cada dia mais mórbida, o Sol penetrava em seus olhos e com seu brilho cortavam todas as expectativas num final feliz em morte. Maldito Sol, lembrando que outros sorririam durante sua camada de ignorância, maldito Sol que com seu brilho trazia de volta toda aquela insegurança.

Era um sarcasmo amedrontador, eram jogos de sadismo, um humor negro perturbador que não era encontrado com saudosismo. Dançando entre corpos mortos, asfixiada com o oxigênio, cansada das promessas de dias melhores e submersa no medo. Primata subdesenvolvido, garota perigo.

Uma bomba ambulante, um aneurisma, fazendo tic tac constante, esperando a oportunidade de dilatar a ferida. Um eterno pesadelo, uma história de contraditórias mentiras. Um rato correndo em um labirinto, uma alma mais que perdida. Grito de socorro ambulante e de comportamento inconstante.

Você deve ter percebido que não estava tão fácil? Bem, ninguém percebia. Era com berros internos escandalosos que o silêncio encobria. Cantava com uma dor estraçalhadora, pedia pra si mesma mais uma chance, mas talvez sua morte fosse o mais sincero vestígio de vida.

Garota literalmente e figurativamente fodida, cheiro de tabaco misturado com derrota, sorriso amarelo que servia para iludir todos a sua volta. A vida já era baseada no desespero, desespero da existência, o mais puro medo de ver o Sol irrompendo seus olhos por mais uma manhã e anunciando toda aquela dolorosa saga de sempre.

Não haviam mais motivos, na verdade nunca houverá. Não existiam mais sorrisos, apenas aqueles que a gente desconsidera. Foi uma decisão fria, calculada com a mesma empatia que ela encarava a vida. Apenas mais uma visita a uma drogaria, apenas mais uma compra a pagar, talvez a última. Uma pinga barata, gosto bom de fuga, aquilo que aqueles meros trocados poderiam comprar.

Momentos antes do grande ato o medo era gigante, o temperamento muito mais inconstante. Era hora do espetáculo, o momento que ela aguardou para brilhar de fato. Tic Tac em sua cabeça, o aneurisma vai explodir, olhe para a dispensa, pense em movimentos que poderão repercutir.

A dor da vida parecia superar a agonia da morte, a dor da vida parecia ser o suficiente pra ela arriscar um ato sombrio que poderia tornar ela ainda mais vegetativa e dispensável. Todos ririam ao vê-la vegetando, todos ririam ao vê-la errando, mas valeria a pena continuar tentando?

Foda-se tudo, danem-se as consequências da medida. Ela estava perdida, mórbida e desgastada, necessitava dar fim e derrubar o muro desse beco sem saída. Teve coragem jamais vista e chegou além, pode olhar daquele seu jeito sádico de sempre para todos ao seu redor e rir com desprezo querendo mantê-los presos em seu teatro barato.

Era finalmente o ultimo ato. Entrou pela porta, fechou o banheiro. Não pensou nas propostas da vida e finalmente deixou se afundar naquele desespero. Foi a ultima vez que um feixe de luz doloroso conseguiu irromper seus olhos, foi a ultima vez que teve que se fingir de feliz para aqueles bastardos inglórios.

Ninguém sabe ao certo de onde essa tristeza vem, viver era apenas mais uma morte eterna, então porque não acabar com a agonia logo? Pegou um punhado de medicamentos, alguns simples comprados na farmácia, outros roubados de sua mãe drogada, um gole naquela brisa e ela finalmente sentiu a liberdade passando por sua garganta., transcorrendo sua goela.

Ela não precisava de nada já que a angustia não passava, sua vida inteira foi apenas o começo do fim. Finalmente a voz dela foi silenciada, ninguém imagina o que se passou naquele banheiro de escola, o tempo parou. O Sol brilhou mais forte do que sempre, mostrando que aprendeu algo com ela, mas felizmente dessa vez não incomodaria como sempre. Entre contorções e regurgitações, ela encontrou a liberdade, a dor da morte pareceu apenas a injeção de uma morfina tão poderosa que conseguiu ofuscar para sempre o peso dessa realidade.

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