18 de ago de 2015

Corre Maria



Acorda corrida, impulsionada pela agonia,
levanta logo, corre corre Maria.
Põe a mesa e reparte o pão,
aferventa o café e a barriga no fogão.

Vamos logo Maria, rasteja sem reclamar,
na profissão mulher não existe férias,
então cumpra seus deveres,
sem pestanejar.

Passa perfume, alisa os cachos,
sucumbe a mídia e evita embaraços.
Dá um beijo nos filhos,
mantém o marido,
enfeita a tristeza,
coloca as vestes de família perfeita
e tenta não se jogar de um precipício.

Esfrega a casa da patroa,
deixa os ranhentos com terceiros,
enquanto cuida dos filhos de outras pessoas.
Não é a vida que pediu a deus,
mas vai mais uma Maria determinada,
corre corre Maria,
pede a ajuda dos santos,
porque se continuar lenta desse jeito
não botará comida em casa.

Tira essa saia, vê se não pede estupro,
anda direito, seja exposta na vitrine da vida,
e para de reclamar aos sussurros.

Engole uns sapos, mas mantém o salário.
Faz amargo o sangue bombeado,
por um coração depositário de mágoas.

Pega o ônibus lotado,
amontoada com tantos outros sonhos,
engole o pranto,
talvez em outra vida o dia-a-dia
não seja tão medonho.

Chega em casa e reúne a família,
descarrega o drama nos incansáveis pirralhos,
afunda a tristeza em novelas batidas.
Corre corre Maria, as crianças querem brincar,
não resta tempo nem mesmo pra você,
então diz qual é o plano para os satisfazer.

Pedro quer um boné, Luíza uma boneca,
vamos logo Maria, satisfaça os outros,
dando o pouco de vida que ainda lhe resta.
Deixa teu homem se lambuzar,
nos teus seios fartos,
vira vira na cama,
como se o sexo animalesco,
fosse um ato programado.

Chora manso ao final do dia,
corre corre procurando sono,
corre corre esperando pelo fim da agonia.
Dorme logo que amanhã o Sol
insistirá em raiar, mas corre mesmo
porque amanhã é dia
de repetir o ritual e manter o lar.

Ser mulher não é nem um pouco fácil,
mas Maria não é nada,
se não expectativas alheias
corridas e corroídas pelo descaso.
Mais uma vítima da pressa do tempo,
talvez um dia descubra
algo além do tédio e da batalha diária
por uma ilusão prometida.

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